Dr. Dorival Ricci Junior – Médico Expert em Tratamento de Pós-Covid
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Poucas palavras ganharam tanta popularidade durante a pandemia quanto “proteína Spike”. Ela se tornou protagonista das discussões sobre infecção, vacinas e Covid longa. Não surpreende, portanto, que qualquer pesquisa envolvendo sua degradação desperte enorme interesse. O desafio é separar o entusiasmo científico das conclusões precipitadas.
Um estudo publicado na revista Molecules mostrou que a nattokinase, uma enzima produzida durante a fermentação do tradicional alimento japonês natto, foi capaz de degradar a proteína Spike do SARS-CoV-2 em experimentos realizados em laboratório. O efeito ocorreu de maneira dependente da concentração da enzima e do tempo de exposição, sugerindo que sua atividade proteolítica pode interferir na estrutura da proteína viral.
À primeira vista, a descoberta parece extraordinária. Mas é justamente nesse momento que a ciência exige muita prudência.
Os experimentos foram conduzidos em culturas celulares e em proteínas isoladas, um ambiente altamente controlado e muito diferente da complexidade do organismo humano. Demonstrar que uma molécula degrada uma proteína em laboratório não significa que ela produzirá o mesmo efeito quando administrada a um paciente, também não nos mostra qual a dose a ser usada para que tenha essa degradação e nem se na concentração de nattokinase demonstrada no experimento não vai também degradar proteínas essenciais para nosso corpo trazendo possíveis malefícios.
A história da medicina está repleta de substâncias que apresentaram resultados promissores em tubos de ensaio, mas fracassaram nos estudos clínicos. Entre a bancada do laboratório e o consultório existe um longo caminho que inclui absorção, metabolismo, distribuição pelo organismo, segurança, diminui a importância do estudo? Pelo contrário. Ele amplia nosso conhecimento sobre possíveis estratégias para bloquear a entrada do vírus nas células e reforça o papel da pesquisa básica como ponto de partida para futuras dose adequada e, principalmente, comprovação de benefício em seres humanos e futuras inovações terapêuticas.
Outro aspecto merece destaque. A nattokinase já vinha sendo estudada por suas propriedades fibrinolíticas e cardiovasculares com segurança e com pouquíssimos efeitos colaterias. Agora, passa a despertar interesse também pela sua atividade enzimática sobre proteínas virais. Trata-se de uma hipótese científica interessante, mas ainda distante de justificar recomendações definitivas. Primeiro observa. Depois confirma. Somente daí teremos recomendações clínicas.
Na minha experiência clínica, se a substancia usada, “off label”, em doses já usadas na medicina com segurança, não trazendo riscos à saúde do paciente, pode ser usada, sob o consentimento do paciente, e é isso que tenho feito obtendo resultados empíricos significativos para recomendar e sugerir que mais trabalhos sejam feitos para realmente analisar a eficácia da nattokinase.
Vivemos uma época em que resultados preliminares circulam nas redes sociais com velocidade muito maior do que as evidências definitivas. Um estudo experimental rapidamente se transforma em promessa de cura; uma hipótese passa a ser tratada como certeza e náo é assim que devemos proceder na medicina.
Talvez essa seja a principal lição desse trabalho: mais do que anunciar um novo tratamento para o Covid Longo ou Covid-19, ele nos lembra que a pesquisa científica é construída com paciência, rigor e humildade. É assim que nascem as grandes descobertas — não das manchetes mais chamativas, mas da força das melhores evidências acumuladas ao longo do tempo. No caso da Nattokinase, a melhor evidencia cientifica, no momento, é essa… deve ser usada? Fica aqui a pergunta para todos…


