Um taco e uma bola custam, juntos, R$ 1,10. O taco custa R$ 1,00 a mais que a bola. A resposta imediata que surge é 10 centavos, mas está errada. Se a bola custasse 10 centavos, o taco sairia por R$ 1,10 e o total seria R$ 1,20. A bola custa 5 centavos.
O teste foi criado por Daniel Kahneman, Nobel de Economia, e abre uma das ideias centrais do livro Rápido e Devagar. A maioria dos alunos de Harvard e do MIT também errou a resposta, segundo o autor. Para Kahneman, o erro não vem da falta de inteligência, mas do excesso de certeza. A mente opera com dois sistemas: um rápido, intuitivo e automático, que respondeu 10 centavos de imediato, e outro lento, que faz a conta e confere. O problema, segundo o livro, é que o sistema lento é preguiçoso e quase sempre concorda com o primeiro.
O sistema rápido não avisa quando está chutando. Ele usa o pouco que sabe, monta a história mais coerente possível e a entrega com convicção. Kahneman resume: o que você vê é tudo que há. Em uma reunião, a pessoa que responde primeiro com segurança acaba definindo o ponto de partida para as demais. É o fenômeno da ancoragem. Em um experimento citado no livro, juízes experientes jogaram um dado viciado antes de decidir a pena de um caso hipotético. Quem tirou número alto aplicou pena maior.
A reflexão se estende a decisões de liderança. A autora do relato, Rafaella Munhoz da Rocha, advogada, decidiu testar uma regra simples: antes da discussão, cada um escreve o que pensa; depois, todos apresentam; e quem tem mais poder na sala fala por último. Segundo ela, as reuniões podem ficar mais longas, mas tendem a ser mais honestas. A mesma lógica vale para planejamento, contratações e mudanças. O livro sugere um exercício chamado pré-mortem: antes de decidir, o grupo imagina que já se passou um ano e tudo deu errado, e responde por quê.
Kahneman admitia que continuava cometendo os mesmos erros que estudou. O sistema rápido não desliga, mas é possível desconfiar dele quando a decisão é grande, quando a certeza chega rápido demais ou quando só se ouve um lado. A pergunta que a advogada pretende fazer antes de cada decisão importante é: o que eu não estou vendo?


