O cenário da guerra contemporânea se expande além dos campos tradicionais de combate, incluindo uma nova arena de batalhas pela narrativa. Nos últimos anos, a inteligência artificial se tornou uma ferramenta crucial nesse contexto, especialmente no conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. O uso de vídeos gerados por IA se multiplicou, transformando o que pode parecer uma brincadeira em uma arma sofisticada de propaganda.
O Irã tem utilizado suas contas oficiais para divulgar vídeos provocativos que satirizam o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Em algumas produções, ambos os líderes são apresentados de maneira caricatural, muitas vezes com referências demoníacas. Os vídeos que mais chamaram a atenção nas redes sociais empregam personagens de Lego, um estilo facilmente reconhecível, onde os americanos são retratados de forma debochada e os iranianos como triunfantes.
Um exemplo notório mostra Trump sendo sugado por uma tempestade de documentos relacionados ao "arquivo Epstein", enquanto uma trilha sonora de rap sugere que segredos estão sendo revelados e a pressão sobre ele cresce. Esses conteúdos têm origem em perfis anônimos, mas são amplamente compartilhados.
De acordo com Felipe Loureiro, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, a guerra de propaganda é um fenômeno antigo, mas a abordagem do Irã é inovadora por ser realizada diretamente por contas oficiais do governo, o que intensifica o impacto e a difusão da mensagem. Ele destaca que o alvo principal dessa estratégia são os jovens americanos, um público que Trump tem perdido, o que justifica a inclusão de elementos da cultura pop, como Lego, nos vídeos.
A professora da PUC-SP, Dora Kaufman, que investiga os efeitos sociais da IA, ressalta que, embora a tecnologia tenha sido desenvolvida majoritariamente nos Estados Unidos, atualmente qualquer um pode utilizá-la. Ela expressa preocupação com o uso de IA para criar vídeos que disseminam desinformação, uma situação que pode ter consequências globais.
Os Estados Unidos não ficam de fora dessa nova batalha. Trump também tem publicado vídeos que fazem referências ao cinema e aos videogames, demonstrando que a disputa de narrativas no Oriente Médio é multifacetada. As redes sociais se tornaram um campo de batalha acessível, onde todos os lados do conflito podem promover suas mensagens de forma ampla.





