Um novo relatório elaborado pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), sob a responsabilidade da historiadora Maria Cecília Adão, sugere que o ex-presidente Juscelino Kubitschek (JK) foi assassinado durante a ditadura militar. O documento, que ainda será submetido à votação do colegiado, pode levar à reformulação das certidões de óbito de JK e de seu motorista, Geraldo Ribeiro.
As conclusões do relatório são baseadas em perícias recentes que revelaram contradições em investigações anteriores, além de uma análise do contexto político da época em que o acidente ocorreu. Em 2001, uma comissão externa da Câmara dos Deputados e, em 2014, a Comissão Nacional da Verdade já haviam adotado a versão de que a morte de JK foi resultado de um acidente. Uma reabertura do caso realizada pela polícia em 1996 também corroborou essa linha de investigação.
JK faleceu em agosto de 1976, em um acidente ocorrido no km 165 da Via Dutra. O veículo, um Opala, era dirigido por Geraldo Ribeiro e saiu da pista antes de colidir frontalmente com uma carreta, após atravessar o canteiro central e trafegar 50 metros na contramão. Desde então, diversas teorias surgiram para explicar as causas do acidente.
A versão oficial, sustentada pelas autoridades da ditadura em 1976, afirmava que o Opala teria colidido com um ônibus da Viação Cometa durante uma manobra de ultrapassagem, o que teria levado à perda de controle do carro. No entanto, o novo relatório retoma uma hipótese que vem sendo defendida por pesquisadores da Faculdade de Direito da USP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Um dos elementos que reforçam essa nova perspectiva é uma carta do coronel Manuel Contreras, da inteligência chilena, dirigida a João Figueiredo antes de sua presidência, na qual sugere ações contra a ascensão de Kubitschek e do diplomata chileno Orlando Letelier. Ambos morreram em circunstâncias suspeitas, com Letelier sendo assassinado em uma explosão de veículo pouco depois da correspondência.
Em 2019, a subprocuradoria-Geral da República decidiu arquivar o caso, uma vez que não havia provas suficientes para comprovar nem a versão do acidente, nem a possibilidade de homicídio. Contudo, a conclusão de Maria Cecília Adão propõe que, em situações de dúvida, a decisão deve favorecer a vítima. Se a Comissão acatar essa visão, o Estado poderá emitir novas certidões de óbito reconhecendo JK e Geraldo Ribeiro como vítimas da ditadura militar.





