Dr. Dorival Ricci Junior – Médico Expert em Tratamento de Pós-Covid
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Durante os anos mais críticos da pandemia, aprendemos a identificar rapidamente os sinais da COVID-19. Febre, tosse, falta de ar e perda do olfato passaram a fazer parte do nosso cotidiano. Hoje, entretanto, o maior desafio talvez seja reconhecer aqueles pacientes que nunca mais voltaram a ser como eram antes da infecção.
A chamada Síndrome Pós-COVID, ou COVID longa, já está bem documentada pela literatura científica. Mesmo assim, continua sendo pouco reconhecida na prática clínica. O resultado é uma legião de pessoas que convivem diariamente com limitações físicas e cognitivas sem receber um diagnóstico adequado.
Um estudo conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com pesquisadores da Harvard T.H. Chan School of Public Health e da London School of Economics, revelou um dado que merece nossa atenção: cerca de quatro em cada dez participantes apresentavam sintomas compatíveis com COVID longa. Apesar disso, menos de 10% haviam recebido esse diagnóstico de um profissional de saúde.
https://agencia.fiocruz.br/covid-longa-estudo-revela-alta-prevalencia-de-sintomas-e-invisibilidade-nos-servicos-de-saude
Esses números revelam uma realidade preocupante. Não se trata apenas de uma condição frequente, mas de uma doença frequentemente invisível.
Os sintomas são múltiplos e, muitas vezes, incapacitantes. A fadiga intensa costuma ser a principal queixa, acompanhada por intolerância aos esforços, dores musculares e articulares, alterações do sono, palpitações, falta de ar e a chamada “névoa cerebral”, caracterizada por dificuldades de memória, atenção e raciocínio. Muitos pacientes também apresentam ansiedade, depressão e outros sintomas neurológicos. Frequentemente, esses quadros surgem após infecções leves, inclusive em pessoas jovens e previamente saudáveis.
O problema é que boa parte dessas manifestações não aparece em exames laboratoriais ou de imagem. Isso faz com que muitos pacientes escutem frases como “seus exames estão normais” ou “isso deve ser ansiedade”. A ausência de alterações nos exames, entretanto, não significa ausência de doença.
Como médico, acredito que um dos maiores desafios atuais seja justamente mudar essa percepção. Precisamos ouvir mais atentamente nossos pacientes e reconhecer que a COVID longa não é uma hipótese distante nem uma condição rara. Ela faz parte da realidade dos consultórios e exige atualização constante dos profissionais de saúde.
A pandemia deixou de ocupar o noticiário diário, mas seus efeitos permanecem presentes na vida de milhões de pessoas. Ignorar essa realidade significa prolongar o sofrimento de pacientes que, além dos sintomas, enfrentam a incompreensão.
A medicina sempre evoluiu quando aprendeu a enxergar aquilo que antes passava despercebido. Talvez este seja o momento de fazermos o mesmo com a Síndrome Pós-COVID. Porque nenhuma doença é mais difícil de tratar do que aquela cuja existência ainda insiste em ser questionada.




