A cannabis, frequentemente associada a restrições em seu cultivo, possui um potencial significativo que vai além da medicina. Especialistas apontam que a planta pode ser utilizada na indústria, destacando o cânhamo como uma matéria-prima versátil, com aplicações em mais de 25 mil produtos diferentes. Mercedes Ponce de León, cofundadora da Latinnabis e da ExpoCannabis Uruguay, ressalta a importância histórica do cânhamo na industrialização humana.
"A fibra do cânhamo é uma das mais antigas e utilizadas na história da humanidade. Portanto, o verdadeiro 'experimento' foi a sua proibição. O que estamos tentando fazer hoje é resgatar esse conhecimento que a humanidade já possui e aplicar toda essa experiência com as tecnologias, pesquisas e avanços atuais", afirmou Ponce de León durante um evento preparatório para a ExpoCannabis Brasil 2026, que abordará o uso da planta no mundo.
A especialista lembra que, na década de 1940, a indústria automobilística já começava a explorar o uso do cânhamo. Henry Ford, por exemplo, projetou um veículo que utilizava bioplástico de cânhamo e um motor movido a biodiesel. Ponce de León argumenta que a proibição da cannabis nos Estados Unidos foi impulsionada por interesses econômicos que favoreciam o algodão, que competia diretamente com o cânhamo.
Outro aspecto que destaca o cânhamo é o seu aproveitamento integral, que permite utilizar 100% de sua estrutura. As raízes são eficazes na fitorremediação, ajudando a limpar metais pesados e purificando corpos d'água. O caule é empregado na bioconstrução, especialmente na fabricação de concreto de cânhamo (hempcrete), que se destaca como um bom isolante térmico e acústico. As fibras são resistentes e imunes a fungos, sendo utilizadas na confecção de tecidos, bioplásticos, papéis e materiais de isolamento sonoro. As folhas e biomassa ajudam na regeneração do solo, além de serem usadas na produção de cosméticos e óleos.
O Uruguai se posiciona como líder em regulamentação e geração de dados sobre o impacto do setor de cannabis. No campo medicinal, o país exporta medicamentos, inclusive para o Brasil, e integra a endocannabinologia na saúde pública e privada. Na esfera industrial, o Uruguai produz tecidos, alimentos a partir dos grãos de cânhamo e bioplásticos para impressão 3D.
Para Mercedes Ponce de León, a colaboração com o Brasil é promissora devido à grande escala da indústria nacional. "O que nós temos hoje é experiência e conhecimento acumulados, mas vocês têm a escala e a estrutura industrial. Podemos compartilhar muita coisa com vocês agora, mas temos certeza de que, no futuro, vocês é que nos abastecerão, pois o Brasil tem vocação para ser uma grande potência no setor", conclui a especialista. O debate sobre a regulamentação da cannabis na América Latina continua a ser um tema central nas discussões econômicas e ambientais da região.




