Aos 73 anos, Dercy Gonçalves fez uma aparição memorável no Canal Livre, programa da Band que se destacou por suas entrevistas impactantes. Com um jeito deboche e irônico, a artista desafiou a censura da ditadura militar de 1980, surpreendendo a bancada com seu humor e sinceridade.
Durante a entrevista, que foi censurada, Dercy abordou temas polêmicos, incluindo seu feminismo e a crítica à situação do Brasil. A censura se mostrou tão preocupada com suas declarações que chegou a apreender o episódio. Na época, jornais relataram que o Canal Livre, da Rede Bandeirantes, oferecia momentos de resistência, com entrevistas que geravam polêmicas, como a de Chico Buarque e a de Fernando Gabeira, que, apesar de também problemáticas, passaram sem maior alarde.
O acervo da Band preserva essa entrevista histórica, e trechos dela foram resgatados pelo programa Band Entretê. A apresentação foi realizada por Roberto D'Ávila, que contou com a participação de jornalistas como Heloísa Buarque de Hollanda, Fausto Wolff, Flávio Rangel e Gabriel Prioli Neto, além da filha de Dercy, Decimar Gonçalves.
Em um dos momentos marcantes, Flávio Rangel perguntou a Dercy se ela consideraria atuar em dramas. A resposta dela foi direta: "Para quê? Já basta a miséria que estamos, vou fazer os outros chorar?". Naquele tempo, Dercy estava em cartaz com a novela "Cavalo Amarelo", onde interpretou a personagem Dulcinéa e teve até a participação de Hebe Camargo.
Quando questionada sobre a possibilidade de recomeçar sua carreira, que completava 55 anos em 1980, a atriz afirmou: "Tudo! Mas tudo de novo, eu voltaria a ser artista, porque não sofri no teatro, na minha trajetória, eu vivi. A vida é viver, ir gozando ela, ninguém encontra só flores…". Essa declaração reflete seu espírito resiliente e a forma como encarava a vida.
O Canal Livre, com mais de 45 anos de história, é um dos programas de entrevistas mais respeitados da televisão brasileira. Desde sua criação, a atração tem sido um espaço para discutir temas relevantes da política, economia e cultura do Brasil, mantendo uma tradição de ousadia e resistência, especialmente em tempos difíceis como o da ditadura.





